Maconha e saúde mental: dependência, psicose e tratamento
Maconha e saúde mental: dependência, psicose e tratamento
A maconha (Cannabis sativa) é a droga ilícita mais usada no mundo. Na maioria das pessoas, o uso é ocasional, mas o uso constante pode levar à dependência, com procura compulsiva pela droga apesar dos prejuízos, e está associado a maior risco de psicose, transtornos de humor e de ansiedade, principalmente em quem tem vulnerabilidade individual ou familiar e em quem começa cedo, na adolescência. Existe tratamento, e ele é feito com psicoterapia e acompanhamento, já que não há medicamento específico aprovado para a dependência de maconha.
Este artigo trata do uso não médico da maconha. Não aborda a prescrição de canabinoides por médicos.
Quão comum é o uso e a dependência
A diretriz sobre abuso e dependência de maconha da Associação Médica Brasileira e da Associação Brasileira de Psiquiatria (Projeto Diretrizes, 2012) informa que a maconha é a droga ilícita mais usada no mundo, e a terceira mais popular em uso recreacional, depois do tabaco e do álcool. Estima-se que 10% dos que experimentaram tornam-se usuários diários e 20% a 30% a consomem semanalmente.
A diretriz cita um estudo americano que encontrou risco de dependência de 9% entre usuários de cannabis, chegando a 16% entre os que começaram na adolescência, e outro que mostrou que 1 em cada 11 pessoas que usaram ao menos uma vez desenvolveu dependência em 10 anos. O risco aumenta para 25% a 50% entre usuários diários. Esses são dados de estudos internacionais e de mais de uma década atrás.
Sinais de dependência
Segundo a diretriz, o uso constante pode levar à dependência, com procura compulsiva pela droga e uso apesar dos efeitos nocivos à saúde, e com prejuízo do funcionamento social, familiar e educacional. Entre os sinais:
Aumento da tolerância, ou seja, precisar de mais maconha para sentir o mesmo efeito
Sintomas ao tentar parar, como irritabilidade, insônia, diminuição do apetite e fissura
Uso apesar de problemas na escola, no trabalho ou nas relações
Queda do rendimento escolar em adolescentes e baixa produtividade em adultos
Prejuízos de memória e atenção
A diretriz recomenda que o abuso e a dependência de maconha sejam investigados nas consultas médicas e que o tratamento comece diante do diagnóstico.
Abstinência de maconha
A diretriz descreve a abstinência como uma alteração comportamental que ocorre quando a concentração da droga no organismo cai em quem fez uso pesado e prolongado. Os usuários diários têm sintomas mais intensos que os ocasionais. Os mais relatados são ansiedade, fissura, insônia e perda de apetite, além de irritabilidade e agressividade, e são parecidos com os da abstinência de nicotina. Os autores observam que não há consenso total sobre o conjunto dos sintomas e que mais estudos são necessários. Esse quadro é diferente da abstinência de álcool, que pode ser grave, descrita no artigo sobre o CID F10, dependência de álcool.
Maconha e psicose
Segundo a diretriz, os transtornos psicóticos são os mais graves entre os transtornos mentais associados ao consumo de maconha. Diversos estudos das últimas décadas indicam que o uso pode desencadear sintomas psicóticos, com intensidade e duração que variam conforme a vulnerabilidade da pessoa, a idade de início, a quantidade e o tipo da droga. O desenvolvimento da psicose foi dose-dependente, mais consistente em indivíduos vulneráveis e naqueles que começaram na adolescência. A diretriz cita também estudos em que o uso de maconha com alta concentração de THC se associou a mais risco de primeiro episódio psicótico.
A diretriz descreve ainda o agravamento dos sintomas da esquizofrenia em quem usa, e recomenda alertar jovens de que o uso pode aumentar o risco de doença psicótica, bipolar, depressiva e ansiosa se houver vulnerabilidade individual ou familiar. Sinais como ouvir ou ver coisas que não existem, desconfiança extrema e confusão exigem avaliação urgente. Em caso de surto ou risco imediato, ligue para o SAMU, 192.
Maconha, ansiedade, depressão e transtorno bipolar
A diretriz associa o consumo de maconha à precipitação ou ao agravamento de episódios de transtornos do humor. Quando desencadeados pela maconha, os quadros com características bipolares costumam ter mais dificuldade de recuperação, mais internações, pior adesão ao tratamento, maior risco de suicídio e maior agressividade. Para entender melhor os sinais de ansiedade, veja o guia sobre sintomas de ansiedade. Se houver pensamentos de morte ou de se machucar, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.
Adolescentes
A adolescência é descrita pela diretriz como um período de maior vulnerabilidade. Adolescentes com baixo rendimento escolar, que começam a usar no início da puberdade, têm maior risco de usar outras drogas ou de se tornarem dependentes. Há prejuízos de memória, atenção e organização em usuários pesados e prolongados, e os estudos divergem sobre se os déficits cognitivos são totalmente reversíveis com a abstinência. A diretriz recomenda psicoeducação de adolescentes e de pais sobre os riscos.
Outros riscos à saúde
A diretriz também aborda riscos fora da saúde mental, como sintomas respiratórios (tosse e expectoração), possível aumento do risco cardiovascular logo após o uso, riscos na gestação e acidentes. Esses temas merecem avaliação médica à parte, e fogem do foco deste artigo.
Tratamento
Segundo a diretriz, as opções de tratamento são as intervenções comportamentais, incluindo a terapia cognitivo-comportamental e o manejo de contingências (incentivo motivacional). Ainda não existem medicamentos específicos para o tratamento da dependência de maconha, e várias tentativas, como dronabinol, bupropiona e mirtazapina, não foram melhores que o placebo. Os princípios do tratamento combinam as opções disponíveis às necessidades de cada pessoa.
Para jovens, a diretriz cita a intervenção breve, que reduziu o uso em 3 meses de acompanhamento em ensaios com jovens usuários, e a terapia multidimensional familiar, um programa ambulatorial para adolescentes que se mostrou eficaz e superior a outras modalidades quanto ao desempenho escolar, social e familiar, com benefício mantido por até 1 ano. Quando há outros transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade ou psicose, eles também precisam de tratamento. A decisão sobre medicamentos para essas condições é do médico.
Para entender como a dependência química é tratada de modo geral, veja o artigo sobre dependência de múltiplas drogas, CID F19.
Quando buscar ajuda
Procure avaliação quando o uso da maconha é frequente e difícil de controlar, quando atrapalha estudos, trabalho e relações, quando aparecem ansiedade, tristeza ou irritabilidade ao tentar parar, ou quando há desconfiança, ouvir vozes ou comportamento estranho. Pedir ajuda não significa ser julgado: o foco é cuidar da saúde.
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Perguntas frequentes
Maconha causa dependência?
Pode causar. Segundo a diretriz da AMB e da ABP, cerca de 9% dos que usam desenvolvem dependência, 17% se o início for na adolescência e 25% a 50% entre usuários diários.
Maconha causa psicose?
Os estudos citados pela diretriz indicam que o uso pode desencadear sintomas psicóticos, principalmente em pessoas vulneráveis, em quem começa na adolescência e em quem usa muito ou maconha com alto teor de THC. Isso não quer dizer que todo usuário terá psicose.
Existe remédio para largar a maconha?
Não existe medicamento específico aprovado para a dependência. O tratamento é feito principalmente com psicoterapia e acompanhamento, e as condições associadas, como ansiedade e depressão, podem exigir medicação.
Parar de usar maconha causa abstinência?
Em quem faz uso pesado e prolongado, pode causar irritabilidade, insônia, ansiedade, perda de apetite e fissura, que costumam ser mais leves que os da abstinência de álcool. Procure acompanhamento para atravessar essa fase com segurança.
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Fontes
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica individual. A TelemedSim é uma plataforma de telemedicina especializada em psiquiatria e psicologia online, com nota 4,9 no Google.
